Monday, April 17, 2006

O BANQUETE - participação especial: Molly



Eu e Leanan agradecemos a Camila Fernandez, por permitir que utilizássemos sua personagem em nosso conto.

O BANQUETE

Contam certas histórias que, na Inglaterra do século 18, o catolicismo sofreu um duro golpe. Novos ventos sopravam pela Europa: a Rússia dos Czares, pelas mãos de Catarina, a Grande, permite a liberdade religiosa; nos Estados Unidos, os testes religiosos são abolidos como requisito para altos cargos governamentais.

Esse contexto gerou solo fértil para George Whitefield, um pregador protestante que, aproveitando-se do conturbado momento londrino, foi rapidamente conquistando simpatizantes e poder. Conhecido por discursos e atitudes implacáveis contra os inimigos de sua fé, tocava com mão de ferro sua congregação, que já contava com membros importantes do parlamento, que obedeciam cegamente suas ordens.

Londres estava em convulsão, a criminalidade assolava as ruas, o aparelho social mostrava-se ineficiente. A cada manhã, mortos e mais mortos davam entrada no necrotério, seres que perdiam as vida das formas mais bizarras.

Whitefield era um homem versado nas artes do oculto e, tendo conhecimento da agitação no underground londrino, sabia que a cidade estava infestada de necromantes, bruxos e que até mesmo alguns vampiros colecionavam corpos todas as madrugadas. Mas nada lhe causava tanto ódio quanto a engenhosa movimentação dos rosacruzes, que, nas sombras, arrebanhavam aliados e já ameaçavam penetrar nas esferas do poder político.

Uma brigada cristã foi então organizada por ele e, nas noites boêmias da capital, uma nova onda de assassinatos saltava aos olhos. Com o apoio velado de boa parte do parlamento e o silêncio cúmplice dos católicos, Whitefield criou sua própria inquisição no submundo de Londres, sem tribunais ou direito à defesa. Todos os que supostamente estavam envolvidos com atividades ocultas eram acusados de serem rosacruzes e sumariamente exterminados.

Passado quase um ano, o genocídio gerava resultados. Quase todos os indesejáveis haviam sido banidos para fora de Londres ou para o inferno, os que restaram estavam escondidos, e o ódio louco de Whitefield crescia.

Foi numa dessas noites de apreensão que Leanan resolveu sair pelas ruas. Alguns de seus conhecidos vampiros haviam caído nas mãos da brigada cristã e foram executados com requintes de crueldade. Atenta, ela caminhava. Tudo era incerto nas madrugadas regadas a vinho e cerveja caseira com seu círculo próximo de pintores e poetas. Uma noite ela conheceu Molly, uma jovem prostituta de brilho singular, na flor de seus 18 anos, era de uma sensualidade ao mesmo tempo infantil e selvagem, que fazia Leanan lembrar-se de sua distante juventude cronológica nas fogueiras de Beltane.

Molly vinha risonha pela rua, estendendo ainda mais o sorriso ao ver Leanan. Sempre admirou a personalidade altiva daquela mulher, de uma beleza rara e implacável, talvez a única mulher em Londres que Molly invejava, sonhava em ser como ela.

-- Boa noite senhorita Leanan.

Cerca de duas horas depois estavam a beber e conversar. Leanan notou que Molly carregava muito dinheiro. Curiosidade que logo foi satisfeita. Embriagada, Molly começava a lhe contar sobre suas peripécias sexuais, sobre como seu nível de vida estava melhorando, deixando de atender a bêbados falidos para servir a membros da côrte e altos escalões do governo. Contara sobre as festas regadas a muito sexo e luxo, e o principal: revelara que a partir daquele dia se dedicaria a um único freguês: George Whitefield!
Leanan teve que esforçar-se para não revelar o prazer que essa informação lhe trazia. Enfim uma fraqueza na armadura do colérico genocida religioso!

Passaram-se os dias, e os encontros entre Leanan e Molly ficaram mais freqüentes, detalhes picantes sobre as taras de Whitefield iam sendo revelados: sadismo, tortura, humilhação, algo um tanto exótico para um conservador líder espiritual.

Foi numa noite tempestuosa que uma recepção a portas fechadas foi organizada numa mansão em Covent Garden. O anfitrião: George Whitefield. Naquela ocasião, Molly trajou-se com muito esmero, estava absurdamente linda! Ao entrar no salão, divertiu-se com os olhares de franco desejo que vinham dos homens, e da inveja cortante de outras prostitutas que estavam por ali.

Na festa, além do próprio Whitefield, que a tomara pelas mãos, outros distintos representantes da elite londrina se encontravam, todos à vontade e entregues aos prazeres.

A noite avançou, o vinho era abubdante, e por fim o descontrole chegou. Aqueles senhores estavam agora a sodomizar suas escolhidas aos olhos de quem quisesse ver. Nas mesas, sofás e corredores, a luxúria se apresentava sem retoques. Molly, sentindo-se tocada pelas mãos de Whitefield, entregou-se rapidamente. O prazer lhe inundava, o vinho a entorpecia, em dado momento sentiu-se girando, como se chamada a uma dança desconhecida. Deixando-se levar, experimentava aquela doce sensação, tal como uma criança a ser embalada. Sentia-se tão bem que ignorava os gritos que começavam a soar em seu redor.

Tais gritos pareciam vir de todos os lados, aterrorizados, urgentes, ruídos de coisas quebrando, brados de clemência, fúria... Em dado momento aquela balbúrdia auditiva chamou sua atenção. Molly olhou para a sala, só a tempo de ver rapidamente uma linda mulher ruiva a exibir caninos assustadores que vertiam sangue quente. E segurando suas mãos naquela dança fúnebre...um espantalho! Molly foi tomada de um terror que jamais havia experimentado antes. Queria livrar-se daquela dança, aquela criatura lhe sorria horrorosamente. Molly gritou, como nunca pensou que pudesse gritar! Sentiu seu corpo cair, viu-se então novamente no interior da mansão, a cena que presenciava fugia a qualquer descrição: corpos dilacerados, sangue, pedaços de carne e membros decepados por todos os lados, um frenesi de cadáveres como ela nunca imaginou.

Próximo à porta, um corpo suspenso e destruído. Próximo a ele, numa elegante bandeja, a cabeça de George Whitefield.

Molly não sabia o que fazer, o que pensar, nem notara que já amanhecera o dia e que a policia londrina já arrombava a porta da mansão, atraída pelos chamados anônimos que davam conta de uma carnificina jamais vista na terra da rainha!

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