Monday, March 13, 2006

O RETORNO

(Por: Scarecrow e Leanan Sidhe)

O céu já se vestia de vermelho e púrpura, as luzes começavam a se acender na cidade. Leanan Sidhe fechou as cortinas do quarto num movimento único e virou-se para olhar Scarecrow. Ele, recostado na cama, parecia concentrado em algo que ela não conseguia definir. Após alguns instantes seus olhos encontram os da vampira, percebendo então estar sendo observado.

- Leanan? Precisamos voltar.

Mesmo sem emitir qualquer som, eram claras as palavras dele, que lhe chegavam aos olhos, ouvidos e mente. Leanan continuava a olhar para ele, sem reação. Estivera apática por meses, e Scarecrow respeitara aquele momento. Enquanto isso, o espantalho envolvera-se em atividades só suas, sem jamais abandoná-la, no entanto. Algumas vezes até mesmo a alimentara, providenciando o que ela precisava para sobreviver. Fora seu cavaleiro andante, mais do que nunca, seu protetor.

Mas o tempo estava passando, e embora nenhum dos dois pudesse ser afetado por ele, sabia que algo precisava ser feito.

Scarecrow engatinhou até os pés da cama, aproximando-se de Leanan. Puxou-a para si, abraçando ternamente sua cintura, encostando seu rosto no corpo dela. A vampira aninhou-se entre os braços dele, sentindo que muito tinha a dizer. Mas sua voz presa negava-se a emergir, dando lugar a uma lágrima que descia solitária.

Ambos estavam em silêncio. Meses haviam passado e as aventuras, o gosto pela caça e os desafios haviam cessado. Agora a necessidade do ato predatório parecia gritar no interior de ambos, lutando contra um entorpecimento que se instalara precisava ser exorcizado.

Leanan viajou por suas lembranças, desde Vegaard, passando por vários países... e o Inferno, o amaldiçoado local onde encontrou Scarecrow pela primeira vez, e de onde saíram juntos para nunca mais se separarem. Num furtivo olhar, ela pôde perceber que seu cavaleiro de palha também perdia-se em devaneios.

A solidão a dois cobrava seu preço, a fera interna gritava, Leanan precisava sair de seu casulo e ganhar a rua; os olhos de Scarecrow eram claros, onde ela fosse ele estaria: na vida, na morte, no sempre!

O calor que vinha do corpo de Scarecrow lhe pareceu o alento final. Muito havia acontecido, muito mais haveria de acontecer, era preciso viver esse orgulho. Os inimigos estavam sempre por perto, para divertirem-se a qualquer custo, por mais barato que fosse.

Leanan levantou-se, procurou banhar-se com esmero e em pouco tempo era novamente aquela irresistível assassina que fascinou o Paraíso e o Hades.

O vento da noite soprou em seu rosto. Confiante, observou a cidade ao longe. Era hora de caçar, hora de voltar a plantar o medo no coração dos homens.

Numa última olhada para trás, viu seu protetor a postos. Ele lhe sorria, estava tudo pronto. Aquela seria a primeira de muitas noites de sangue!

Campo de Sonhos.

(Por: Scarecrow Scarecrow)
Lembro-me quando todas as noites eu adentrava aquele quarto escuro em ansiedade nervosa, os cobertores quentes, a colcha sempre cheirosa, alguns minutos de leitura distraída até ser vitimado pelo conteúdo da algibeira de Morpheus.
E como sempre o meu refúgio estava lá, sob um céu de Aurora Bureau, me sorria um campo que ia ao infinito, florido de sonhos que gentis esperavam que começasse minha colheita, ao que eu, obviamente não me fazia de rogado.
Munido de um cesto lá ia eu atravessando aquele vasto campo de sonhos, colhendo cuidadosamente aqueles que melhor me aprouvessem, qual um cinéfilo inveterado eu escolhia sonhos diversos, e para meu deleite sempre encontrava o que queria, após a colheita eu sentava-me e os admirava fascinado, sem saber de qual deles deveria usufruir primeiro, eram tantos e tão belos, um bálsamo, um elixir que me rejuvesnecia a cada dia.
Como era ruim voltar à realidade, caminhar entre os vivos num mundo que não era o meu, pessoas apressadas e mal educadas, preguiçosos, glutões e serescarregados de vulgaridades de toda espécie, as horasdiurnas eram um transtorno que eu só poderia suportar graças aos meus sonhos colhidos com esmero por todas as noites.
Não demorou muito para que viesse a chuva e a tempestade, durante alguns dias meu campo de sonhar parecia fugir, as passagens ficaram estreitas e doloridas, eu me perguntava o que havia. A resposta vinha num ressonar abafado que me fazia lembrar de uma máquina ou algo assim. Assustado fui forçando minha passagem de volta.
Ferido, faminto e cansado consegui votar ao meu amado campo de sonhar, esperava fazer uma doce e reparadora colheita, revigorar-me daqueles dias tão duros. Já abria o sorriso quando aterradoramente vi minha plantação de sonhos devastada, agonizando ao chão e pedindo por socorro. Ao longe um grande objeto de aparência metálica desaparecia no horizonte.
Sua gargalhada me atingiu como uma bala certeira!
Caído, sangrando eu me arrastei para junto de meus sonhos que ali jaziam. Abracei-me a eles, jurei-lhes que ainda haveríamos de ressucitar, juntos. Dei-lhes parte de meu sangue na esperança de não vê-los perecer.
Sei que ainda devo retornar , mas não posso deixá-los aqui à sua própria sorte, certamente eles morrerão amargamente.
E eu morrerei entre os vivos!
FIM