Saturday, April 29, 2006

O útimo lycan virgem

Eu caminhava preocupado, as ruas eram por vezes ilumindas pelo clarão dos holofotes que vinham do alto, presos em helicópteros barulhentos, carros de patrulha circulavam a todo instante e tive que mostrar meus documentos e responder perguntas diversas vezes, aquilo me assustava.

Ainda era possível ver a carnificina naqueles quarteirões, vísceras, olhos, pedaços de cadáveres de todo tipo, córregos de água e sangue vagando em direção aos bueiros, o cheiro inconfundível da morte.

O corpo de bombeiros recolhia partes desses corpos, com escatológica ironia, imaginei quantos famintos poderiam ser saciados com as sobras de tal banquete, a besta havia saído, por uma última vez, era hora de parar, e eu seria sua testemunha.

Parei em frente a uma porta e acendi nervosamente um cigarro, quando julguei não estar sendo observado, entrei num antigo edifício.

Subi a escadaria imersa em escuridão, eu havia sido instruído para não usar elevador, cansado após cinco lances de escada, aproximei-me de uma porta e entrei.

Ela estava lá...

Num canto, sentada na cama eu só podia ver seus olhos brilhando no quarto negro.

-- Aproxime-se cherrie!

Sentei-me a seu lado, ela tocou suavemente meu rosto, o contato de suas garras em minha pele deixou-me excitado.

Me contou ser a última de sua raça, que aos poucos foi caçada e exterminada pelos humanos e suas armas, que tentou viver discretamente entre os homens, mas que os anos passaram e a selvageria foi ficando incontrolável, a fome aumentando...

Por fim tudo explodiu, ela saiu pelas ruas embrutecida, e promoveu tamanha matança que agora atraíra muita atenção, estava sendo procurada, e logo a encontrariam, seria sacrificada impiedosamente, mas que antes de partir desejava compartilhar comigo um segredo.

Dito isso ela me abraçou, puxou-me para junto dela, apesar de estar tranformada, não recusei seu corpo, suas garras rasgavam-me as costas enquanto eu a possuía, ou era possuído.

Notei que à medida que o orgasmo se aproximava ela voltava à sua forma humana, quando atingímos o ápice ela gritou e desfaleceu em meus braços, abracei-a e lhe falei algo ao ouvido, ela não respondia, demorei alguns minutos para perceber que estava morta.

Levantei rapidamente, um pouco triste, um pouco indignado, sentia-me usado como um último brinquedo sexual de uma lycan à beira da morte, e ao mesmo tempo apaixonado por ela.

Ao sair, pude ouvir passos violentos escada acima, me escondi no escuro enquanto um bando de soldados passava em direção ao quarto, ela havia sido descoberta.

Uma lágrima desceu quando ouvi os tiros, ela estava morta, mas assim mesmo seu corpo não fora respeitado, caminhei pelas ruas em meio à confusão, e nesse momento lembrei do segredo que ela havia me reservado, e não contara-me.

Sem ainda perceber, continuei caminhando enquanto meus caninos e unhas vagarosamente começavam a crescer!

Monday, April 17, 2006

A trilha do espantalho

Aquela noite, há muito tempo atrás, estava mais escura do que de costume. No horizonte, o brilho esporádico dos relâmpagos iluminavam a paisagem deserta. Em ambos os lados daquela auto-estrada, nada se via que destoasse dos campos extensos de uma região serrana. Nem mesmo havia outros veículos para quebrar aquela monótona viagem - um trajeto longo entre duas grandes cidades cujos nomes se perderam no tempo.

Solitário, o motorista lutava contra o sono, bem como contra o relógio. Precisava chegar o quanto antes, por isso acelerava, enquanto elevava suas preces ao céu no desejo de que o cansaço não fizesse daquela estrada seu túmulo, um túmulo feito de peças metálicas disformes a emoldurarem um corpo destroçado, por alguma curva mal intencionada.

Esses pensamentos ora o assustavam, ora o divertiam. Lembrava-se das histórias de sua infância, carregada de fantasmas, monstros folclóricos e noites apertadas na cama, que poderiam ser amenizadas se houvesse a coragem necessária para procurar um banheiro. Nada de mais acontecia, ou melhor quase nada de mais acontecia. Quase.

Inesperadamente seu carro deu um forte solavanco; seus sentidos rapidamente entraram em sinal de alerta, o freio foi acionado. Respirando fundo ele desceu, verificou os pneus; nenhum estava furado.

De posse de uma lanterna, caminhou na direção do obstáculo que havia se interposto em seu caminho. Imaginava que havia atropelado algum pobre animal - naquela região era muito comum a morte de animais na auto-estrada.

O facho de luz alcançou a pobre criatura que jazia no asfalto. Seu sangue congelou, um pavor indescritível apossou-se de seu ser. Aquilo não era um animal. Ali no asfalto havia um corpo, um homem, deitado de costas. Tinha cabeça e mão direita decepadas. Usava uma camisa xadrez e calças jeans muito sujas. A cena era apavorante, a vontade de correr foi aumentando e só com muito controle ele permaneceu ali.

Certificando-se de que estava só, apontou sua lanterna em todas as direções. A não ser por um espantalho desengonçado e pendendo de uma cruz, nada mais havia ali que parecesse vivo. Examinou bem o corpo: a mão e cabeça que faltavam não estavam nas imediações, havia muito sangue, como se o pobre homem tivesse morrido barbaramente. O terror teve uma rápida metamorfose para o ódio, e ele desejou por um curto momento colocar as mãos no ser que havia cometido tal barbárie.

O ódio voltou a ser terror quando pensou que aquilo poderia ter sido obra de algum animal, embora naquela região não houvesse histórico de predadores de grande porte, nem de qualquer animal que atacasse homens. No entanto, como aquilo lhe pareceu plausível, decidiu retornar ao carro, como se um sinal de alerta houvesse sido ligado. Continuou sua viagem, que seguiu sem maiores incidentes.

Os dias passaram, e ele nada disse a qualquer pessoa sobre o ocorrido. Teorizava, criava hipóteses, buscava informações. Um ataque de animal selvagem começou a dar margem até mesmo a conspirações secretas e abduções.

Decorrido algum tempo, foi pensando menos naquilo, e já quase se esquecia por completo quando, certa noite, seus sonhos foram invadidos pelas cenas daquele dia. O corpo estava lá, a auto estrada, o espantalho...mas ele não estava mais na cruz, estava em pé, a fitá-lo.

O sonho o incomodou. Na verdade, o espantalho fora da cruz o incomodou, mas aquilo foi tomado como um mero sonho. Noites depois, um novo sonho: dessa vez as imagens eram difusas, havia algo mais ali, quase pode ver alguém ou alguma coisa atirando aquele corpo no asfalto; e o espantalho continuava em pé. fitando-o.

Os dias então começavam a passar mais lentamente. Ele estava nervoso, com os olhos perdidos ao longe, e houveram mais sonhos. Dessa vez, viu uma silhueta, parecia alguém...algo de feminino dançava naquelas sombras. Dessa vez o espantalho lhe sorria.

Um misto de medo e curiosidade o assaltavam todo o tempo, e crescia dentro dele a sensação de que só teria paz se resolvesse aquele mistério. Novos sonhos surgiam, os detalhes aumentavam. O espantalho, dessa vez, estava parado às portas de uma velha casa. Chovia, a porta entreaberta lhe convidava a entrar, a silhueta presente em outros sonhos havia desaparecido.

Os dias passavam, a agonia aumentava. Por fim, ele decidiu que voltaria naquele local para uma última olhada, sentia-se cada vez mais impelido àquilo. A noite estava fria, e munido de botas forradas e jeans, vestiu por cima da blusa de lã uma camisa xadrez de flanela, que o ajudaria a lutar contra o frio.

A viagem foi rápida, a ansiedade aumentava à medida que se aproximava do local. Lá chegando, parou o carro e pegou sua lanterna. Já não havia mais vestígios do que presenciara: sem sangue, sem marcas. Imaginou que o corpo havia sido descoberto pela policia, retirado, e que agora estavam a investigar o ocorrido. Com sua lanterna olhou em volta - nada havia ao redor. Caminhou a esmo por alguns metros e nada encontrou. Começou a rir-se de si mesmo, contornou uma grande pedra que escondia atrás de si um pequeno carreiro, que resolveu seguir.
Cerca de trezentos metros à frente observou que o céu se fechava. Pensou em voltar, mas um relâmpago revelou-lhe logo ali uma casa, que não podia ser vista em meio à escuridão.

As histórias macabras da infância lhe voltaram à mente. Um pequeno vacilo foi logo suplantado por sua coragem masculina - precisava provar a si mesmo que aquilo tudo era uma bobagem.

Aproximou-se da casa, não havia cercas, nem animais. Um novo relâmpago mostrou-lhe apenas uma cruz da qual pendia um maltrapilho espantalho. Uma onda de pavor percorreu seu corpo, mas ele já não conseguia sair dali. Aproximou-se mais, a velha casa estava no escuro. Tocando temerosamente a porta, abriu-a e entrou.

Lá dentro, uma surreal cenografia o esperava: a casa estava ludicamente iluminada por uma fogueira que ardia imponente numa bela lareira; a sala, ricamente decorada, em nada lembrava as ruínas que se viam do lado de fora. Seus olhos correram por todo o recinto, até encontrarem subitamente um outro olhar.

Uma mulher, vestida de negro, lhe sorria, e a delicadeza de seus gestos o encantou imediatamente. Sentia-se docemente violentado por aquele olhar. Sem qualquer reação, viu quando ela sorveu um último gole do mais vermelho vinho que já havia conhecido, e aproximou-se devagar, abrindo seus braços.

O abraço recebido foi terno, carregado de promessas e desejos. Um calor percorria seu corpo entorpecendo-o. Podia sentir aqueles seios roçando-lhe o peito, estava pronto para a entrega. Antes de sentir um beijo quente e embriagador a roçar-lhe o pescoço, pôde ainda ouvir as poucas palavras que aquela extraordinária mulher lhe segredou:

- Eu sou Leanan Sidhe.

A noite estava fria e escura, um princípio de chuva já se precipitava do firmamento, quando o sonolento motorista subitamente foi desperto por um solavanco.

Descendo de sua pick-up, protegido por uma capa de chuva e com lanterna em punho foi verificar o ocorrido. Estremeceu com a mórbida visão de um cadáver jogado no asfalto, sem a cabeça e a mão direita; usava calças jeans muito sujas, camisa xadrez e botinas forradas.

Apavorado, direcionou sua lanterna ao redor em busca de uma resposta para tão terrível cena, mas nada encontrou ali que pudesse lhe dar alento. Sua angústia era partilhada apenas por aquele corpo decapitado e por um velho espantalho desengonçado, que pendia de uma cruz.

Leanan Sidhe & Scarecrow

O BANQUETE - participação especial: Molly



Eu e Leanan agradecemos a Camila Fernandez, por permitir que utilizássemos sua personagem em nosso conto.

O BANQUETE

Contam certas histórias que, na Inglaterra do século 18, o catolicismo sofreu um duro golpe. Novos ventos sopravam pela Europa: a Rússia dos Czares, pelas mãos de Catarina, a Grande, permite a liberdade religiosa; nos Estados Unidos, os testes religiosos são abolidos como requisito para altos cargos governamentais.

Esse contexto gerou solo fértil para George Whitefield, um pregador protestante que, aproveitando-se do conturbado momento londrino, foi rapidamente conquistando simpatizantes e poder. Conhecido por discursos e atitudes implacáveis contra os inimigos de sua fé, tocava com mão de ferro sua congregação, que já contava com membros importantes do parlamento, que obedeciam cegamente suas ordens.

Londres estava em convulsão, a criminalidade assolava as ruas, o aparelho social mostrava-se ineficiente. A cada manhã, mortos e mais mortos davam entrada no necrotério, seres que perdiam as vida das formas mais bizarras.

Whitefield era um homem versado nas artes do oculto e, tendo conhecimento da agitação no underground londrino, sabia que a cidade estava infestada de necromantes, bruxos e que até mesmo alguns vampiros colecionavam corpos todas as madrugadas. Mas nada lhe causava tanto ódio quanto a engenhosa movimentação dos rosacruzes, que, nas sombras, arrebanhavam aliados e já ameaçavam penetrar nas esferas do poder político.

Uma brigada cristã foi então organizada por ele e, nas noites boêmias da capital, uma nova onda de assassinatos saltava aos olhos. Com o apoio velado de boa parte do parlamento e o silêncio cúmplice dos católicos, Whitefield criou sua própria inquisição no submundo de Londres, sem tribunais ou direito à defesa. Todos os que supostamente estavam envolvidos com atividades ocultas eram acusados de serem rosacruzes e sumariamente exterminados.

Passado quase um ano, o genocídio gerava resultados. Quase todos os indesejáveis haviam sido banidos para fora de Londres ou para o inferno, os que restaram estavam escondidos, e o ódio louco de Whitefield crescia.

Foi numa dessas noites de apreensão que Leanan resolveu sair pelas ruas. Alguns de seus conhecidos vampiros haviam caído nas mãos da brigada cristã e foram executados com requintes de crueldade. Atenta, ela caminhava. Tudo era incerto nas madrugadas regadas a vinho e cerveja caseira com seu círculo próximo de pintores e poetas. Uma noite ela conheceu Molly, uma jovem prostituta de brilho singular, na flor de seus 18 anos, era de uma sensualidade ao mesmo tempo infantil e selvagem, que fazia Leanan lembrar-se de sua distante juventude cronológica nas fogueiras de Beltane.

Molly vinha risonha pela rua, estendendo ainda mais o sorriso ao ver Leanan. Sempre admirou a personalidade altiva daquela mulher, de uma beleza rara e implacável, talvez a única mulher em Londres que Molly invejava, sonhava em ser como ela.

-- Boa noite senhorita Leanan.

Cerca de duas horas depois estavam a beber e conversar. Leanan notou que Molly carregava muito dinheiro. Curiosidade que logo foi satisfeita. Embriagada, Molly começava a lhe contar sobre suas peripécias sexuais, sobre como seu nível de vida estava melhorando, deixando de atender a bêbados falidos para servir a membros da côrte e altos escalões do governo. Contara sobre as festas regadas a muito sexo e luxo, e o principal: revelara que a partir daquele dia se dedicaria a um único freguês: George Whitefield!
Leanan teve que esforçar-se para não revelar o prazer que essa informação lhe trazia. Enfim uma fraqueza na armadura do colérico genocida religioso!

Passaram-se os dias, e os encontros entre Leanan e Molly ficaram mais freqüentes, detalhes picantes sobre as taras de Whitefield iam sendo revelados: sadismo, tortura, humilhação, algo um tanto exótico para um conservador líder espiritual.

Foi numa noite tempestuosa que uma recepção a portas fechadas foi organizada numa mansão em Covent Garden. O anfitrião: George Whitefield. Naquela ocasião, Molly trajou-se com muito esmero, estava absurdamente linda! Ao entrar no salão, divertiu-se com os olhares de franco desejo que vinham dos homens, e da inveja cortante de outras prostitutas que estavam por ali.

Na festa, além do próprio Whitefield, que a tomara pelas mãos, outros distintos representantes da elite londrina se encontravam, todos à vontade e entregues aos prazeres.

A noite avançou, o vinho era abubdante, e por fim o descontrole chegou. Aqueles senhores estavam agora a sodomizar suas escolhidas aos olhos de quem quisesse ver. Nas mesas, sofás e corredores, a luxúria se apresentava sem retoques. Molly, sentindo-se tocada pelas mãos de Whitefield, entregou-se rapidamente. O prazer lhe inundava, o vinho a entorpecia, em dado momento sentiu-se girando, como se chamada a uma dança desconhecida. Deixando-se levar, experimentava aquela doce sensação, tal como uma criança a ser embalada. Sentia-se tão bem que ignorava os gritos que começavam a soar em seu redor.

Tais gritos pareciam vir de todos os lados, aterrorizados, urgentes, ruídos de coisas quebrando, brados de clemência, fúria... Em dado momento aquela balbúrdia auditiva chamou sua atenção. Molly olhou para a sala, só a tempo de ver rapidamente uma linda mulher ruiva a exibir caninos assustadores que vertiam sangue quente. E segurando suas mãos naquela dança fúnebre...um espantalho! Molly foi tomada de um terror que jamais havia experimentado antes. Queria livrar-se daquela dança, aquela criatura lhe sorria horrorosamente. Molly gritou, como nunca pensou que pudesse gritar! Sentiu seu corpo cair, viu-se então novamente no interior da mansão, a cena que presenciava fugia a qualquer descrição: corpos dilacerados, sangue, pedaços de carne e membros decepados por todos os lados, um frenesi de cadáveres como ela nunca imaginou.

Próximo à porta, um corpo suspenso e destruído. Próximo a ele, numa elegante bandeja, a cabeça de George Whitefield.

Molly não sabia o que fazer, o que pensar, nem notara que já amanhecera o dia e que a policia londrina já arrombava a porta da mansão, atraída pelos chamados anônimos que davam conta de uma carnificina jamais vista na terra da rainha!

Devaneios frente ao monitor!

(Por: Scarecrow)

Chuva forte desaguando de um céu negro que parecia ruir sobre minha cabeça. Correria de uma marquise à outra na tentativa de ser menos vitimado pela torrente, depois de algumas quadras, tropeços e infindáveis palavrões lá estava eu, em meu lar.
Olhando ao redor senti-me um pouco mais seguro, havia um que de vazio, não sabia se em mim ou apenas na casa...quem sabe em ambos?
Mas de qualquer forma estava em meu lar, com seus quadros imaginários pintados de sonhos que hoje estão a se desbotar, a sala sem móveis, a condenável bagunça na cozinha, o de sempre.
Um xícara de café, o alento básico dos solitários, roupa trocada, uma olhada rápida nas contas a enfeitar a porta de minha geladeira, o desânimo em saber que mais aquele mês me será difícil.
No quarto os cobertores espalhados contam histórias, já foram mais quentes em noites que pareciam mais frias...
Hoje o inverno e os cobertores me são indiferentes.
Sento-me à frente de meu computador, digito alguma coisa... lá vou eu, num mundo diferente, onde eu sou belo, bem sucedido e garboso, um mundo de frases de efeito e diálogos copiados, um universo de respostas inteligentes extraídas do google.
Nesse mundo me perco, me fascino, nesse mundo tudo posso, sem nada perder.
Amanhã? Quem se importa?
Amanhã voltarei para os corpos de carne, frágeis, fúteis, ferrados...como o meu.
Mas hoje....
Hoje eu sou um dos milhões de reis, de seres especiais que buscam afagos eletrônicos nos corredores cibernéticos, entupidos como veias adiposas.
Mas cujo sangue tem sabor sempre doce!

Scarecrow

Mais pensamentos do passado....

(Por: Scarecrow)


Gostava de parar naquele campo e esperar o vento, sempre, na hora marcada ele vinha trazendo notícias de longe, as vezes zunindo delicadamente, contando histórias de declarações sentidas acompanhadas por ouvidos e sorrisos no alto de sacadas, em outros momentos ele vinha sorrateiro, me revelando trapaças e planos traçados na escuridão, e haviam os dias em que vinha violento, trazendo desavenças e pústulas da psiquê.
Hábil infromante o vento, sentido e não visto, onipresente, de invejável memória.
Nada há na natureza que aprecie espalhar noticias mais do que ele, e assim o fazia, árvores e animais, homens e pedras, daqui até onde morrem os arco-íris, o vento seguia em sua função de falastrão.
Às vezes ele me perguntava como me andava a vida, eu lhe respondia sempestanejar, não poderia mentir, ele saberia, mas educado como era ainda se dava ao trabalho de dialogar comigo, desejando ouvir o que já sabia.
Mas era preciso ser rápido para dialogar com o vento, sim, pois este jamais repetia uma notícia, era preciso um bom ouvido, cordialidade, a efemeridade da vida se mostrava em sua passagem, uma única citação de um único momento, depois, um novo fato haveria de se sobrepor a tudo, o vento não lhe recontará o passado, pois isso não o interessa.
E foi assim quando o estampido seco ecoou por aquele campo anunciando o final de meu caminhar, tudo acabara, eu só desejava alçar outros degraus, abandonar a dor e poupar a todo um mundo de se importar, e assim se fez.
Agora, o vento há de contar a história a quem puder ouvir, mas uma única vez, depois eu estarei nos quartos do efêmero, e a vida seguirá seu rumo. Provando não precisar de mim!

Scarecrow